As terras do Brigadeiro Jordão

Quase tudo teve sua origem com presença entre 1702 ou 1720, do sertanista Gaspar Vaz da Cunha, que por ordem do rei de Portugal, abriu um caminho que desde o Vale do Rio Sapucaí até a cidade de Pindamonhangaba, do guarani, "Curva do rio onde se encontram os anzóis", com objetivo de empreitada de transportar o ouro das Minas de Itajubá, uma cidade mineira. Apesar de mais tarde este caminho ter sido fechado, o “Oyaguara”, como também era conhecido, fincou raízes na região, transformando-a em importante centro de criação de gado, o primeiro ciclo econômico da futura Campos do Jordão. Ele foi um dos 55 netos de Gaspar Vaz Guedes, considerado o principal povoador e fundador de Mogi das Cruzes. Em 1771, atraído pelo maravilhoso clima e vegetação ímpar da região, Ignácio Caetano Vieira de Carvalho resolveu aqui se estabelecer e consigo trouxe seus três filhos. Quase duas décadas se passaram, quando em 27 de setembro de 1790 através de uma carta enviada ao Governador da Capitania de São Paulo, requereu e obteve com sucesso uma sesmaria referente à área atual de Campos do Jordão, fundando a Fazenda Bom Sucesso, depois conhecida como "Campos do Ignácio". Era conhecido pelas suas maldades contra os escravos da região. Aos que não sabe, a Sesmaria era a concessão de terras no Brasil pelo governo português com o intuito de desenvolver a agricultura, a criação de gado e, mais tarde, o extrativismo vegetal, tendo se expandido à cultura do café e do cacau. Ao mesmo tempo, servia a povoar o território e a recompensar nobres, navegadores ou militares por serviços prestados à coroa portuguesa. O sistema de sesmarias do Brasil era um prolongamento do sistema jurídico português, estabelecido pela lei de 26/05/1375 e baixado por D. Fernando. A sesmaria representava a exploração econômica da terra de maneira rápida, tendo fundamentado a organização social e do trabalho desenvolvida no Brasil, assim como o latifúndio monocultor e escravagista. A cidade deve seu nome ao brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, ele que nem a conheceu, tendo recebido em hipoteca as terras de Ignácio Caetano, em 1823, batizando-as de Fazenda Natal, dada a proximidade das festividades natalinas no ato da escritura, que no ano de 1825 ficou conhecida como "Os Campos do Jordão". Morador da capital, à Rua Direita n. 21, ocupou cargo de Diretor do Tesouro Nacional no primeiro império. Proprietário de tantas terras, como a Fazenda Morro Azul, assim como as fazendas do Ibicaba, Quilombo e Santa Gertrudes, a Morro Azul, tem sua origem na Sesmaria do Morro Azul, situada nas cabeceiras do Ribeirão do Pinhal, que em 13/1/1817, atual cidade de Limeira/SP, foi concedida ao Tenente Joaquim Galvão de França e Manoel de Barros Ferraz. Sua formação ocorreu por volta de 1820. Seu primeiro proprietário foi o Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, um dos mais importantes defensores da Independência do Brasil. Este nobre cidadão participou com outros poucos patriotas, oferecendo seu capital, para reposição do dinheiro do Banco do Brasil, cujos cofres, haviam sido esvaziados pela família real, por ocasião de seu retorno a Portugal. Não é mera coincidência, o nome dado à cidade de Campos do Jordão, e vale à pena observar que o terreno, no qual foi construído o Museu do Ipiranga em 1894 para celebrar o marco de nossa história, pertencia ao influente Brigadeiro. A sede da Fazenda foi construída entre 1868 e 1877, pelo seu filho, Silvério Rodrigues Jordão. Todo o material de construção, canos, blocos, vidros, móveis, portas e janelas, veio da Europa, e a partir de Campinas, em carros de bois, por 120 km de lamaçais. Enquanto a maioria das fazendas de café tem estilo colonial, são belas e amplas, porém, sem maior criatividade, o Solar da Morro Azul, se destaca pela excelência de seu projeto arquitetônico e sua forma apalacetada, sendo a única sede rural brasileira, com azulejos, portugueses e ingleses, utilizados na decoração de sua fachada. No processo de tombamento, ocorrido em 1973, comandado pelo pesquisador, Arlindo de Salvo, foi considerada, como, “Talvez o mais requintado exemplar de fazenda do Século XIX. Por ter hospedado, duas vezes o Imperador Pedro II, é conhecida na região, como a Fazenda do Imperador, mais precisamente, como Casa de D. Pedro. Outra das terras foi no início da década de 1820, o Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, comprou uma gleba de terras, na lendária Sesmaria do Morro Azul, pertencente aos irmãos Galvão de França e Manoel de Barros Ferraz. Seu filho, Amador de Lacerda Rodrigues Jordão, o Barão de São João do Rio Claro, fundou, em parte destas glebas, a Fazenda Laranja Azeda, que após a morte de sua mãe, Dona Gertrudes Galvão de Moura Lacerda, passou a denominar-se Fazenda Santa Gertrudes. Após a morte do Barão de São João do Rio Claro (1873), sua mulher e viúva, Baronesa D. Maria Hipólita dos Santos Silva, casa-se, mais precisamente em 1876, com o Marquês de Três Rios, que assim passou a ser o segundo proprietário da fazenda. Por sua iniciativa, a fazenda foi servida pela estrada de ferro, que trouxe grande progresso e desenvolvimento à região. Por morte do Marquês e de sua mulher, que não deixaram geração, a fazenda foi herdada por D. Antonia dos Santos Silva Prates, irmã da Marquesa de Três Rios e casada com o Conde de Prates. Foi exatamente nesta época e por iniciativa do Conde, homem influente e grande empreendedor que a fazenda atingiu seu maior apogeu”. Entre 1890 e 1910, ele construiu uma das maiores e tecnificadas estruturas de plantação, benefício e comercialização do café, o que implicava em carpintaria, ferraria, selaria, tulha de café, máquinas de benefício, armazéns, marcenaria, escola, cinema, cocheiras, currais, barragens, aquedutos, igreja, mirantes, usina a vapor para fornecimento de energia elétrica além de cunhar sua própria moeda. Toda esta estrutura continua preservada. São mais de vinte e dois mil metros quadrados de construção harmoniosamente criada pelo bom gosto de um arquiteto francês, que há mais de um século, se sujeitava às regras de um plano acadêmico diretor. Nas primeiras décadas do século XX, a fazenda foi sempre considerada modelo e por isso recebeu a visita de pessoas ilustres, que chegavam a São Paulo, vindas de trem, as quais eram recebidas, na estação da Vila, então chamada de Gramado e hoje Santa Gertrudes, pelo Conde de Prates, com suas carruagens sempre reluzentes e impecáveis. A Fazenda, com sua arquitetura francesa, já centenária, recebem visitas, levando-as aos tempos áureos do café, desde a colheita até o embarque, na estação do trem, passando por todos os processos intermediários, mais ou menos complexos.

O desenvolvimento ...

Em relação a Campos do Jordão, com a divisão das terras após sua morte, em fevereiro de 1827, o português Matheus da Costa Pinto, morador de Pindamonhangaba, ficou com uma área à beira do Rio Imbiri (região próxima à Vila Jaguaribe), ali instalando uma escola, uma capela (atual Igreja N.SRA. da Saúde), um pequeno comércio, uma pousada e uma pensão para "respirantes" – como eram chamados os que sofriam de problemas respiratórios. Surgia a Vila de São Matheus do Imbiri onde a colonização se iniciou, dando motivo para Matheus da Costa Pinto ser considerado o fundador da cidade. Em sua homenagem, apenas uma avenida que leva seu nome na Vila Santa Cruz, faz sua homenagem. A cidade tem sua festa dia 29 de Abril. Aos que visitam a Vila Jaguaribe, na Praça Nossa Senhora da Saúde, poderá observar uma bela obra da artista polonesa, Felícia Leirner, retratando os 100 anos da colonização. A atual igreja foi construída no local da antiga capela de São Matheus, em 1949. Em 1951, o artista campista Expedito Camargo Freire (Campinas/SP-1908-91) fez doação de um belo mural intitulado SALLUS INFIRMORUM, localizado atrás do altar principal. Foi estudante no Liceu de Artes e Ofício do Rio de Janeiro, onde participou em companhia de Pancetti, Bustamante Sá, Sigaud, Magali e outros, do "Núcleo Bernardelli". Expedito Camargo Freire chegou a Campos do Jordão em 1941 para tratar da saúde e acabou se apaixonando pela região, de onde não mais saiu, promovendo importantes eventos de artes plásticas. Suas pinturas figuram nos principais museus do mundo, inclusive no Louvre, em Paris. Com o crescimento desse primeiro povoado, o bairro, logo depois chamada Vila Velha, transformou-se em Vila Jaguaribe, em 1891, como homenagem a Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho, médico, deputado e escritor, que defendeu, com ajuda dos artigos assinados por Quintino Bocaiúva, Theodoro Sampaio e Dom José Pereira da Silva Barros entre 1896 e 1911, a idéia de transferir a Capital da República para Campos do Jordão, considerando os contrafortes naturais da Mantiqueira uma proteção natural. Da pequena Vila Jaguaribe, a cidade estendeu-se pelo vale do ribeirão Capivari dando origem a outros bairros (que hoje formam os principais núcleos da cidade de Campos do Jordão), urbanizados pelos pioneiros Robert John Reid - Vila Abernéssia e o Embaixador José Carlos de Macedo Soares - Vila Capivari.

Ciclo da cura ...

No início do século XX, o fato do clima local apresentar altos níveis de oxigênio, aliado as baixas temperaturas da região, a cidade passou a ser referência no tratamento de tuberculose, a partir desta época foram criados sanatórios para tratamento da doença, sendo o primeiro a Divina Providência em 1929. A principal qualidade terapêutica do clima é a altitude, pois estamos com boa elevação altimétrica, com baixa oxigenação, tornando assim mais rarefeito o ar e fazendo com que o bacilo tenha pouco desenvolvimento. A tuberculose é umas doenças graves, transmitidas pelo ar, que pode atingir todos os órgãos do corpo, em especial nos pulmões. O microorganismo causador da doença é o bacilo de Koch, cientificamente chamado Mycobacterium tuberculosis. O bacilo é aeróbico, ou seja, precisa de oxigênio. E justamente nos pulmões onde encontra a hospedagem apropriada. Em meados da década de 40 Campos do Jordão já possuía 14 sanatórios e as dezenas de pensões nas vilas Abernéssia e Jaguaribe costumavam completar os leitos, sempre insuficientes para acolher todos os enfermos. Nesta época a cidade passou a atrair médicos e pacientes de todo o país, alguns destes, políticos influentes e grandes empresários, que em função dos longos períodos que o tratamento exigia, fixaram residência e trabalho na cidade, colaborando e muito com o desenvolvimento da região. A procura do clima por personalidades do mundo social e empresarial, principalmente de São Paulo (o maior centro industrial da América Latina), que aqui vieram construir suas casas de veraneio, começou a mudar a fisionomia da cidade, que passava de cidade-saúde para cidade-turismo. É claro que além do clima, outros fatores contribuíram para essa transformação: a construção do Palácio do Governo, que foi iniciada em 21 de julho de 1938, quando o Dr. Adhemar de Barros era Interventor Federal no Estado e somente foram concluídos 26 anos depois, em 1964, quando este voltou a governar São Paulo; a construção de hotéis exclusivos para turistas, como o Grande Hotel, construído em 1944 pelo Governo do Estado, no qual foi instalado no ano seguinte um cassino que funcionou até 1946. Outros hotéis de classe internacional também surgiram nesta época, como o Hotel Toriba em 1943, o Hotel Rancho Alegre em 1946. O zoneamento, com a localização dos sanatórios fora da zona urbana e a proibição de pensões para doentes em zonas residenciais, eram garantias de que os enfermos ficariam confinados nos hospitais, podendo então os turistas usufruir a cidade sem o receio de contágio. Estes, por sua vez, para se hospedarem nos hotéis, tinham de apresentar atestados de saúde, sendo que alguns hotéis como o Grande Hotel e o Toriba, tinham inclusive instalações de Raios-X. O avanço da medicina que introduziu o tratamento quimioterápico em doenças pulmonares tornando secundário o fator clima e a desativação dos sanatórios exclusivamente para tísicos apagaram os últimos vestígios do segundo ciclo de Campos do Jordão, o Ciclo da Moléstia. Em 1957, Campos do Jordão recebeu o título de “cidade de melhor clima do mundo”, em um Congresso de Climatologia realizado na cidade de Paris, superando cidades como Davos e Chamonix, a famosa estância francesa, com isto a cidade fechava com chave de ouro sua vocação para estância turística. Com o crescente fluxo de turistas o Estado começou a investir na Estância com a instalação de equipamentos turísticos e realização de eventos artístico-culturais. A Estrada de Ferro Campos do Jordão passou de meio de transporte de doentes à prestadora de serviços turísticos, operando trens de luxo entre Pindamonhangaba e Campos do Jordão e bondes urbanos em fins de semana, feriados e temporadas, as antigas gôndolas foram transformadas em autotrem para transporte de automóveis. Em 1971 foi instalado o teleférico no Morro do Elefante e o controle da ferrovia passou da Secretaria de Transportes para a Secretaria de Turismo.

Os famosos ...

O Festival de Inverno, que teve sua origem nos "Primeiros Concertos de Inverno de Campos do Jordão", realizados de 24 de julho a 1º de agosto de 1970 no Palácio Boa Vista, que, aliás, iniciados por Magdalena Tagliaferro com a canção "Jesus Alegria dos Homens", mais conhecida como Magda Tagliaferro, *Petrópolis, jan/1893 + Rio de Janeiro set/1986 foi uma pianista considerada como uma das grandes do século XX. Seu nome brilha ao lado de artistas como Arthur Rubinstein, Cláudio Arrau, Guiomar Novais e outros. A pianista impôs uma nova concepção de sonoridade feminina no teclado. Exímia intérprete passa a ser modelo de referência interpretativa. Foi um símbolo do piano, uma personalidade de energia contagiante, um talento exuberante. Seu trabalho foi sempre alvo de excelentes críticas. Desenvolveu uma brilhante carreira artística, sem nunca se esquecer de sua missão pedagógica. Segundo ela, não há gênio no mundo que resista à falta de estudo. Aos treze anos ganhava o Primeiro Prêmio do Conservatório Nacional de Paris. Dava regularmente concertos na França e em outros países da Europa, além do Brasil e Estados Unidos. Foi professora em São Paulo, Paris e Rio de Janeiro. Recebeu vários prêmios e condecorações nacionais e internacionais. Em 1929 gravou o seu primeiro disco. Desenvolveu uma técnica de ensino muito particular e foi criadora do que hoje chamamos de Aula Pública, que visa à educação dos alunos e a formação do público. Em 1940 fundou a Escola Magda Tagliaferro e em 1969 constituiu a Fundação Magda Tagliaferro. Para ela, o homem só poderia ser verdadeiro se, em seu desejo de perfeição, aceitasse e, até mesmo, tirasse partido de sua falibilidade. É hoje certamente o mais importante festival de música erudita do País, e para abrigar esse evento de renome internacional foi construído o Auditório Cláudio Santoro em 1979 e junto a ele o Museu Felícia Leirner em 1985, o maior museu a céu aberto da América do Sul. Devido às características climáticas e paisagem semelhante às de várias regiões da Europa, Campos do Jordão passou a receber construções com arquitetura típica dos Alpes Suíços, não tendo recebido a esmo o apelido de "Suíça Brasileira". A terceira grande virada da cidade se fez pela construção da Torre do Boulevard Geneve na atual Praça Emílio Ribas, em Vila Capivari em meados de 1985. Como um dos ícones dessa arquitetura européia inspirada num prédio da cidade de Rotemburgo, na Alemanha. Seguindo a técnica alemã de Chaiméll, em que há o travamento das madeiras sem a presença de materiais metálicos, também presentes no estado de Santa Catarina, com telhado no estilo suíço. Pela Estância de Campos do Jordão passaram escritores como Monteiro Lobato, Paulo Dantas, Maria de Lourdes Teixeira, Dinah Silveira de Queirós; poetas, como Ribeiro Couto, Guilherme de Almeida, Menottabençoados e formosos Camposs, como Caio Prado Junior; juristas, como Miguel Reale e Alexandre Correa; artistas plásticos, como Brecheret, Lasar Segall, Felícia Leirner, Pancetti, Manabu Mabe e Camargo Freire, além de políticos, como Getúlio Vargas, João Figueiredo, Ernesto Geisel, João Goulart, Adhemar de Barros, Carvalho Pinto, Jânio Quadros, Franco Montoro, Paulo Maluf, Laudo Natel, Abreu Sodré e tantos outros. Jamais a cobiça do ouro, no passado, poderia sugerir a Oyaguara e a Inácio Caetano que a riqueza não estava nas Minas Gerais, mas se achava aqui mesmo, no Alto da Mantiqueira, acima das poluições, na abençoados e formosos Campos do Jordão. Por isso cisma o poeta em sua lira: “Não sabiam os pobres viajantes que o tesouro, de ouro não era não! Nem de esmeraldas, nem de diamantes, o tesouro era Campos do Jordão”.